431. Não podemos nos deter aqui para analisar todas as questões que integram a
atividade pastoral da Igreja, nem podemos propor projetos acabados ou linhas de
ação exaustivas. Só nos deteremos a fim de mencionar algumas questões que
alcançaram particular relevância nos últimos tempos, para que, posteriormente, as
Conferências Episcopais e outros organismos locais avancem em considerações
mais amplas, concretas e adaptadas às necessidades do próprio território.
9.1 O matrimônio e a família
432. A família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e
caribenhos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte
importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam
diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários
de Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja
transformada e a família assuma seu ser e sua missão240 no âmbito da sociedade e
da Igreja241.
433. A família cristã está fundada no sacramento do matrimônio entre um homem e
uma mulher, sinal do amor de Deus pela humanidade e da entrega de Cristo por sua
esposa, a Igreja. A partir desta aliança se manifestam a paternidade e a
maternidade, a filiação e a fraternidade e o compromisso dos dois por uma
sociedade melhor.
434. Cremos que “a família é imagem de Deus que, em seu mistério mais íntimo não
é uma solidão, mas uma família”242. Na comunhão de amor das três Pessoas
divinas, nossas famílias tem sua origem, seu modelo perfeito, sua motivação mais
bela e seu último destino.
435. Visto que a família é o valor mais querido por nossos povos, cremos que se
deve assumir a preocupação por ela como um dos eixos transversais de toda ação
evangelizadora da Igreja. Em toda diocese se requer uma pastoral familiar “intensa e
vigorosa”243 para proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida e
trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados.
436. Esperamos que os legisladores, governantes e profissionais da saúde,
conscientes da dignidade da vida humana e do fundamento da família em nossos
povos, defendam-na e protejam-na dos crimes abomináveis do aborto e da
eutanásia; esta é sua responsabilidade. Por isso, diante de leis e disposições
governamentais que são injustas à luz da fé e da razão, deve-se favorecer a objeção
de consciência. Devemos nos ater à “coerência eucarística”, isto é, ser conscientes
de que não podem receber a sagrada comunhão e ao mesmo tempo agir com atos
ou palavras contra os mandamentos, em particular quando se propicia o aborto, a
eutanásia e outros graves delitos contra a vida e a família. Esta responsabilidade
pesa de maneira particular sobre os legisladores, governantes e os profissionais da
saúde244.
437. Para tutelar e apoiar a família, a pastoral familiar pode estimular, entre outras,
as seguintes ações:
a) Comprometer de uma maneira integral e orgânica ás outras pastorais, os
movimentos e associações matrimoniais e familiares a favor das famílias.
b) Estimular projetos que promovam famílias evangelizadas e evangelizadoras.
c) Renovar a preparação remota e próxima para o sacramento do matrimônio e da
vida familiar com itinerários pedagógicos de fé245.
d) Promover, em diálogo com os governos e a sociedade, políticas e leis a favor da
vida, do matrimônio e da família246.
e) Estimular e promover a educação integral dos membros da família, especialmente
daqueles membros da família que estão em situações difíceis, incluindo a dimensão
do amor e da sexualidade247.
f) Estimular centros paroquiais e diocesanos com uma pastoral de atenção integral à
família, especialmente aquelas que estão em situações difíceis: mães adolescentes
e solteiras, viúvas e viúvos, pessoas da terceira idade, crianças abandonadas, etc.
g) Estabelecer programas de formação, atenção e acompanhamento para a
paternidade e a maternidade responsáveis.
h) Estudar as causas das crises familiares para encará-las em todos os seus fatores.
i) Continuar oferecendo formação permanente, doutrinal e pedagógica para os
agentes de pastoral familiar.
j) Acompanhar com cuidado, prudência e amor compassivo, seguindo as orientações
do Magistério248, os casais que vivem em situação irregular, conscientes que os
divorciados e casados novamente não são permitidos comungar249. Requerem-se
mediações para que a mensagem de salvação chegue a todos. É urgente estimular
ações eclesiais, com um trabalho interdisciplinar de teologia e ciências humanas,
que ilumine a pastoral e a preparação de agentes especializados para o
acompanhamento destes irmãos.
k) Diante das petições de nulidade matrimonial, fazer com que os Tribunais
eclesiásticos sejam acessíveis e tenham uma correta e rápida atuação250.
l) Ajudar a criar possibilidades para que os meninos e meninas órfãos e
abandonados consigam, pela caridade cristã, condições de acolhida e adoção e
possam viver em família.
m) Organizar casas de acolhida e um acompanhamento específico para socorrer
com compaixão e solidariedade ás meninas e adolescentes grávidas, ás mães
“solteiras”, os lares incompletos.
n) Ter presente que a Palavra de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento,
solicita-nos uma atenção especial em relação às viúvas. Procurar uma maneira para
que elas recebam uma pastoral que as ajude a enfrentar esta situação, muitas vezes
de desamparo e de solidão.
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