quarta-feira, 12 de março de 2014

Salmo 50 (51) - Reflexão


Salmo 50 (51) - Compadecei-Vos de mim, ó Deus
Renovai-vos
pela transformação espiritual da vossa inteligência
e revesti-vos do homem novo (Ef 4, 23-24).
3 Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, *
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
4 Lavai-me de toda a iniquidade *
e purificai-me de todas as faltas.
5 Porque eu reconheço os meus pecados *
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas. 
6 Pequei contra Vós, só contra Vós, *
e fiz o mal diante dos vossos olhos.
Assim é justa a vossa sentença *
e recto o vosso julgamento.
7 Porque eu nasci na culpa *
e minha mãe concebeu-me em pecado.
8 Amais a sinceridade de coração *
e fazeis-me conhecer a sabedoria no íntimo da alma. 
9 Aspergi-me com o hissope e ficarei puro, *
lavai-me e ficarei mais branco do que a neve.
10 Fazei-me ouvir uma palavra de gozo e de alegria *
e estremeçam meus ossos que triturastes.
11 Desviai o vosso rosto das minhas faltas *
e purificai-me de todos os meus pecados.
12 Criai em mim, ó Deus, um coração puro *
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. 
13 Não queirais repelir-me da vossa presença *
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
14 Dai-me de novo a alegria da vossa salvação *
e sustentai-me com espírito generoso.
15 Ensinarei aos pecadores os vossos caminhos * 
e os transviados hão-de voltar para Vós.
16 Ó Deus, meu Salvador, livrai-me do sangue derramado * 
e a minha língua proclamará a vossa justiça. 
17 Abri, Senhor, os meus lábios *
e a minha boca anunciará o vosso louvor.
18 Não é do sacrifício que Vos agradais * 
e, se eu oferecer um holocausto, não o aceitareis.
19 Sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido: * 
não desprezareis, Senhor,2
um espírito humilhado e contrito.
20 Pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, *
reconstruí os muros de Jerusalém.
21 Então Vos agradareis dos sacrifícios devidos, 
oblações e holocaustos, *
então serão oferecidas vítimas sobre o vosso altar.

● Cada sexta-feira nos traz a memória da morte do Senhor, e com ela a salvação que, do seu lado 
aberto, jorrou para toda a humanidade. "Jesus, Filho de Deus Salvador, tende piedade de nós". Por 
isso a Liturgia das Horas faz-nos repetir este salmo penitencial nas Laudes de cada sexta-feira. 

● Para começar a Quaresma, nada melhor que o Miserere, palavra com que começa o texto em 
latim.O Salmo 50 (51) é o Salmo penitencial mais intenso e repetido, o cântico do pecado e do 
perdão, a meditação mais profunda sobre a culpa e a graça, um hino ao Deus misericordioso que sai 
dos lábios do pecador arrependido.
→ Resalto nas páginas seguintes alguns excertos retirados do Saltério Liturgico ou de Catequeses 
do Papa João Paulo II, o qual fez quatro catequeses sobre este salmo, se as quiserem ler na integra 
basta seguirem os endereços indicados na referência bibliográfica.

● A tradição judaica colocou este Salmo nos lábios de David, convidado pelas palavras severas do 
profeta Natan a fazer penitência (cf. vv. 1-2; 2 Sam 11, 12), o qual lhe reprovava o adultério 
cometido com Betsabé e o homicídio de seu marido, Urias. Trata-se de um salmo penitencial, os 
sentimentos aí expressos correspondem à história de David e à sua consciência do pecado cometido 
(2 Sam 12), mas também à de todo o povo de Israel, pelo que podemos pensar que ele terá sido 
composto depois do exílio de Babilónia (sobretudo pela alusão feita nos vv 20 e 21), para assumir e 
pedir perdão pelas infidelidades do povo, desde as de todos os reis, até àquelas que originaram o 
desterro e a destruição dos muros de Jerusalém.

● O salmista é alguém que descobre e toma consciência da profundidade do seu pecado, e que 
suplica a Deus que o renove até ao mais profundo do seu ser. Começa por pedir o perdão ao Senhor 
para as suas faltas: apagai os meus pecados, lavai-me de toda a iniquidade (3-4). Como reconhece 
que é pecador e nasceu na culpa, mas sabe que Deus ama a sinceridade de coração, suplica-Lhe que 
o restabeleça na sua amizade (5-14). Depois promete que ensinará a outros pecadores os caminhos 
de Deus, mas para isso precisa que o Salvador o livre de cometer mais violências e ponha nos seus 
lábios um cântico de louvor e de acção de graças (15-17). Por fim, em atitude de sacrifício 
agradável a Deus, oferece-Lhe o seu espírito arrependido, enquanto espera que o Senhor reconstrua 
os muros de Jerusalém e restabeleça o culto sobre o altar do templo (18-21).

● Podemos rezar este salmo como súplica individual a Deus, porque reconhecemos que somos 
pecadores; ou em nome da Igreja, povo santo e pecador, sempre necessitado de purificação, em cujo 
seio o joio cresce juntamente com o trigo; e em nome de toda a humanidade, onde não cessam de 
aumentar a corrupção, a violência e o sangue derramado. Em comunhão com a Igreja, santa e 
pecadora, e com toda a humanidade onde coexistem o bem e o mal, peçamos a Deus que, pela sua 
grande misericórdia, nos conceda inteligência para condenar o mal, vontade para fugir dele e 
clemência para com as nossas faltas.
Nenhum de nós se libertou ainda de todas as fraquezas e pecados. Mas este salmo ensina que 
ninguém deve perder a esperança de o conseguir. O Senhor nos dê a graça de viver bem, de viver 
santamente, pois para isso nos salvou, graças ao sangue de Cristo e nos revestiu «do homem novo, 
criado à imagem de Deus, na justiça e na santidade» (Ef 4, 24).

● O Salmo nos primeiros versículos apresenta-se como uma análise do pecado, feita diante de Deus. 
São três as palavras hebraicas usadas para definir esta triste realidade, que provém da liberdade 
humana mal empregue.3
- A primeira palavra, hattá, significa literalmente "não atingir o alvo": o pecado é uma aberração 
que nos afasta de Deus, meta fundamental das nossas relações, e por conseguinte também do 
próximo.
- A segunda palavra hebraica é "awôn, que remete para a imagem de "torcer", "curvar". Por 
conseguinte, o pecado é um desvio sinuoso do caminho recto; é a inversão, a deturpação, a 
deformação do bem e do mal, no sentido declarado por Isaías: "Ai dos que ao mal chamam bem, e 
ao bem, mal, que têm as trevas por luz e a luz por trevas" (Is 5, 20). Precisamente por este motivo, 
na Bíblia, a conversão é indicada como um "voltar" (em hebraico shûb) ao caminho recto, 
corrigindo o percurso.
- A terceira palavra que o salmista usa para falar do pecado é peshá. Ela exprime a rebelião do 
súbdito em relação ao soberano e, por conseguinte, é um desafio aberto dirigido a Deus e ao seu 
projecto para a história humana.
→ Estas definições ajudam-me a perceber melhor o que é o pecado e os seus danos na minha vida e 
na minha relação com Deus?
→Conhecer os Seus caminhos e «voltar-se para o Senhor» é o sentido literal da palavra conversão 
(cf. vers. 15). Como vou viver a Quaresma como oportunidade real de viragem? Poderá ser ocasião 
propricia para celebrar o Sacramento da Reconciliação.

● Este salmo reflete um desejo sincero e autêntico de uma vida nova (cf vv 9 e 12). Na perspectiva 
cristã é o desejo de viver de acordo com a vida nova e o coração novo recebidos no Baptismo. Todo 
o salmo está repassado da confiança na misericórdia de Deus, que nos faz recordar a força das 
palavras de Ezequiel: «Não quero a morte do pecador, mas que ele se converta e viva!» (Ez 33,11) 
ou de S. João: «Por isto conheceremos que somos da verdade e, na sua presença, sentir-se-á 
tranquilo o nosso coração, mesmo quando o coração nos acuse; pois Deus é maior que o nosso 
coração e conhece tudo» (1 Jo 3, 19-20). O Senhor aprecia a sinceridade de coração (cf. v 8), 
coloquemo-nos pois na sua presença com humildade, sinceridade, verdadeira contrição e desejo de 
salvação, de onde brotam o perdão e a paz de Deus em nosso favor.
→ Também deseja ter um coração puro e um espírito firme? Pede-o com sinceridade e perseverança 
ao Senhor?
→ Depois do pecado, deseja experimentar de novo a alegria da salvação de Deus e aproxima-se do 
Senhor com confiança na sua abundante misericórdia?

● Se o homem confessa o seu pecado, a justiça salvífica de Deus está pronta para o purificar 
radicalmente. Desta forma passa-se para a segunda parte espiritual do Salmo, a luminosa da graça 
(cf. vv. 12-19). De facto, através da confissão das culpas abre-se para quem reza um horizonte de 
luz no qual Deus actua. O Senhor não age apenas negativamente, eliminando o pecado, mas 
regenera a humanidade pecadora através do seu Espírito vivificante: infunde no homem um 
"coração" novo e puro, ou seja, um conhecimento renovado, e abre-lhe a possibilidade de uma fé 
límpida e de um culto agradável a Deus.
Orígenes fala a este propósito de uma terapia divina, que o Senhor realiza através da sua palavra e 
mediante a obra regeneradora de Cristo: "Assim como Deus predispôs para o corpo o remédio das 
ervas terapêuticas misturadas com sabedoria, assim também preparou remédios para a alma com as 
palavras que infundiu, distribuindo-as nas divinas Escrituras... Deus também deu outra actividade 
médica, cujo arquiatra é o Salvador, o qual diz de si mesmo: "não são os sadios que precisam do 
médico, mas os doentes". Ele era o médico por excelência capaz de curar qualquer debilidade, 
qualquer enfermidade" (Homilias sobre os Salmos, Florença, 1991, pp. 247-249).
→ A consciência e identificação do pecado não é um fim em si mesmo, é uma parte necessária do 
processo, para poder haver conversão e receber a graça e a salvação de Deus. Reconheço e admito 
que a consciência do pecado permite a “terapia divina”, permite identificar e diagnosticar o mal e o 
seu tratamento pelo “divino médico” que é Jesus?

● O Salmo 50 tem um fim cheio de esperança porque o orante é consciente de ter sido perdoado por 
Deus (cf. vv. 17-21). Agora, os seus lábios preparam-se para proclamar ao mundo o louvor ao 4
Senhor, confirmando desta forma a alegria que experimenta a alma purificada do mal e, por isso, 
libertada dos remorsos (cf. v. 17). O orante testemunha de modo claro outra convicção, 
relacionando-se com o ensinamento reiterado pelos profetas (cf. Is 1, 10-17; Am 5, 21-25; Os 6, 6): 
o sacrifício mais agradável que se eleva ao Senhor como perfume e fragrância agradável (cf. Gn 8, 
21) não é o holocausto de touros ou de cordeiros mas, antes, o "coração quebrantado e humilhado" 
(Sl 50, 19). O Senhor não despreza um espírito humilhado e contrito, pelo contrário acolhe-o.
Os pecadores não são capazes de se purificarem sozinhos; não bastam bons sentimentos, por isso o 
v 21 fala da necessidade de uma mediação sacrifical. É preciso uma mediação externa eficaz. O 
Novo Testamento revelará o sentido pleno desta intuição, mostrando que, com a oferta da sua vida, 
Cristo realizou uma mediação sacrifical perfeita. 
→ Quando o meu coração está assim partido deixo que Jesus seja o oleiro, que o restaura?

● «A queda de um homem tão forte como David, deve fazer-nos medir a nossa fraqueza, para não 
desejarmos o que Deus nos proíbe. De longe viu David a mulher, mas o desejo estava perto. O que 
ele via estava longe, o que o perdeu estava nele. O pecado está em ti quando sucumbes ao seu 
atractivo; reina em ti quando nele consentes. É preciso dominá-lo para não nos tornarmos seus 
escravos. Só estarás em segurança se o coração estiver ao abrigo de todo o desejo. Talvez me 
respondas: "Eu resisto com força"! Serás tu mais forte que David?
Dissemos o que se deve evitar; escutemos agora o que se deve imitar, se alguém vier a cair. Há 
muitos que querem cair com David, mas não querem levantar-se como David. Não foi para cair que 
a sua queda nos foi dada como exemplo, mas para que, se caíres, te levantes. Tem cuidado para não 
caíres.
A queda dos grandes não deve fazer a alegria dos pequenos, mas inspirar-lhes temor. 
(… … …) Disse estas coisas aos que as não fizeram, para que se mantenham vigilantes, guardando 
a sua integridade, e para que, ao verem como caiu o homem forte, os débeis tenham temor.
Contudo, se alguém que tiver caído ouvir isto e a sua consciência o acusar de alguma coisa má, dê-
se conta das palavras deste salmo; atenda às dimensões da ferida, mas não desespere do poder do 
médico. Pecado com desespero é morte certa.
Ninguém diga que Deus não perdoa certos pecados. Assim como este salmo torna cautelosos os que 
não caíram, de igual modo não quer que desesperem os que caíram. Qualquer que seja o que pecou, 
não duvide de fazer penilência pelo seu pecado. Não desespere da salvação. Ouça David a lamentarse.
Ouça-o clamar e clame com ele, ouça-o lamentar-se e lamente-se com ele, ouça-o chorar e junte
as suas lágrimas às dele, ouça-o arrepender-se e alegre-se com ele. Se o pecado não pôde cortar-te o
passo para o cometeres, não te corte a esperança do perdão. O grande rei ouviu o profeta; ouça o
povo humilde a voz de Cristo». (comentário de Stº Agostinho)
→ Ao rezarmos este salmo e pensarmos no pecado de David, reflictam bem nissto os que não
caíram, para não caírem; os que caíram, para se levantarem, e que nenhum encontre aí desculpa
para as suas faltas, em vez de nele encontrarem um estímulo para as evitar. Não digamos: se David
fez isso, ele que era um eleito do Senhor, como não hei-de eu pecar? Imita a sua santidade, não
imites a sua queda.

Referências bibliográficas:
- Saltério Litúrgico, Secretariado Nacional de Liturgia, Gráfica de Coimbra
- Joao Paulo II, audiências de quarta-feira, 24 de Outubro de 2001, 8 de Maio de 2002, 4 de Dezembro de 2002, 30 de Julho de 2003

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